terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Causos do Arantinho




por Arantinho

Voltei ao Oeste

Voltei ao Oeste para rever meus amigos. Muitos já haviam morrido, mas um tinha falecido naquela semana. A primeira coisa que fiz foi comer um dourado assado na churrascaria do Seu Kollman. Também fiz um tira-gosto de rã frita. Delícias que jamais esquecerei.
Convidei outro amigo, este ainda vivo, o Pedro Zimmerman lá de Gaspar, mas que mora lá no Oeste há muitos anos com sua família, para me dizer onde era a cova que o finado Ubert estava enterrado.
Comprei uns três pacotes de velas e fomos para o cemitério. Um calorão daqueles de Itapiranga e nós ali, entre cruzes e catacumbas. Encontramos uma cova fresca e ele me disse que achava que era ali. Peguei os três pacotes de velas, acendi uma por uma e, pensando no meu amigo ali enterrado, rezei mais de dez ave-marias e pai-nossos. A gente quando reza no cemitério até parece que conversa com o defunto. Pelo menos é isso que acontece comigo, até vejo o próprio sentado na minha frente. Por isso não gosto de ir ao cemitério sozinho, tem que ter alguém por perto que se mova, como vivo. Não tenho medo de morto, mas...
Pois então, depois de acender aquela velarada toda, rezar mais de uma hora ali emperado, conversar com o defunto meu amigo, me grita o Pedro lá longe: “Achei, achei, é aqui que o Seu Ubert está enterrado.” Poxa Pedro, acendi as velas no defunto errado e ainda rezei e conversei com ele. Pedi muitas desculpas para aquele defunto, retirei todas as velas e as levei para o defunto certo, quase às gargalhadas impróprias para o ambiente. Ainda bem que o cemitério estava vazio, quero dizer, de gente viva, para não presenciarem aquela cena.
Na volta para a casa do Pedro ouvi barulhos no campo de futebol. O Pedro me disse que estava havendo na cidade um campeonato amador de futebol. Rumamos para lá. Entre os times estavam o Canto do Rio do Ribeirão e o Barrense da Barra da Lagoa. Sol escaldante, quase cinqüenta graus e o Barrense jogando com o Pinhalzinho. A sombra do estádio chegava até a metade do campo. Era lá que todos os jogadores do Barrense estavam jogando. Ninguém do time da Barra queria jogar no sol. O técnico gritava: “Vai lá pro lado direito, lado direito isteporada.” Ninguém queria ir, era lá que estava o sol. Duas horas da tarde, naquela soleira, o Barrense agoniado depois de comer um churrasco com maionese. Também, depois de uma viagem de oitocentos quilômetros, desde a Barra da Lagoa, encarar aquela temperatura e sem nenhuma “babuja” de vento. Nenhuma folha se mexia, tamanha calmaria. Acostumados com o nordeste na cara o dia todo, não teve outra, perderam o jogo mais de 6 a 0.
Já o Canto do Rio resistiu mais um pouco. Chegou ao vice-campeonato, perdendo somente para o dono da casa, o Cometa Futebol Clube. No outro dia li uma nota no jornal Diário Catarinense, escrita por José cordeiro Neto: “ Méritos aos atletas, diretoria e comissão técnica do Canto do Rio Futebol Clube por terem representado muito bem a cidade de Florianópolis no Campeonato Estadual de Futebol não profissional, sagrando-se vice-campeões... Vale elogiar a recepção que o Canto do Rio teve nas cidades de Pinhalzinho e Itapiranga.”
É, eu também estava lá.

Colaboradora: Kátia Lorenzon Vieira

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